Crónica invitada # 3: "Se eu fosse mulher"
Otra crónica invitada como parte de aquel mencionado curso de "Crónicas Verde-Amarelas", "Brasileiras", "Venezuelanas", o lo que sea.
“Se eu fosse mulher”
Dou uma nova volta aos meus pensamentos. Devo encontrar no meu sistema paradigmático as razões ou ações que eu tomava se eu fosse mulher. Vamos pensar nisto e como na crónica anterior, sempre faço com aquele café na mão.
Começo assim: Se eu fosse mulher, com certeza me chamava Ana ou Gabriela, não sei porquê, mas acho que sempre gostei desses nomes. Se eu fosse mulher e se tivesse o mesmo corpo que tenho agora, com certeza seria uma mulher das mais feias do mundo. Ó, pá, uma mulher gorda com barba, bigode e um bocado careca? Seria a principal atração dum circo mexicano ou argentino qualquer. Mas, pronto, não era bom ficarmos parados no detalhe exterior, que, porventura, sempre passará, deixará de ser, tornará podre.
Começo por pensar em diferentes situações de “Se eu fosse mulher”. É giro pensar que sou Arnold Schwarzenegger no filme “Terminator” e como essa personagem, posso usar um enorme leque de respostas, frases previamente arranjadas com as quais o robô assassino é capaz de se desvencilhar de qualquer problema. Entro no meu leque, na minha própria relação paradigmática e encontro como primeiro assunto o seguinte:
Se eu fosse mulher e morasse numa favela venezuelana dessas muito pobres, não tivesse dado a luz a tantos e tantos filhos. Se eu fosse uma Maria Pérez, ou uma Antónia, dessas tantas que andam nas nossas favelas gostava de sorrir mais à vida, aos meus filhos, e gostava de não pensar tanto nos problemas da pobreza. Se eu fosse uma dessas Marias, gostava imenso de não ter medo dos criminosos e malandros que dão tiros num concerto interminável de sangue e morte. Gostava também de saber que a minha filha mais nova não será cortejada pelo dono da favela e que não acabará como eu, sendo o sujeito duma crónica avulsa, escrita por uma pessoa avulsa como é o Enrique, cheia de filhos e com oportunidades perdidas.
Saio do meu paradigma. O anterior foi bastante duro, mas não deixa de ser certo e real. Dou algumas voltas para descansar da primeira cena, a primeira situação e entro do novo no assunto dos paradigmas.
Se eu fosse mulher, não deitava a culpa da morte do meu marido no meu filho bebé. Um bebé não pode ter a culpa por um carro qualquer ter atropelado ao pai. Sendo mulher, achava lindo ter a oportunidade de ser mãe e gastar agora esse tempo dando chapadas, batidas, fazendo o bebé sentir miserável e culpado pela morte do pai, não faz sentido nenhum. Se eu fosse mulher não tivesse apagado os sorrisos dos meus filhos com tanta violência, com tanto palavrão. Se eu fosse mulher e fosse mãe, dava mais abraços e beijos e nunca mais um olhar de desprezo e crítica, nunca mais. Em fim, ensinava a sorrir mais e ter optimismo.
Se eu fosse mulher também não separava o meu filho do pai, só por brigas. Ninguém devia ter a potestade de separá-los dessa maneira. O amor do filho não tem nada a ver com o amor do pai. Isto não é concorrência! Também não rodeava tudo de mistérios e enigmas, achava melhor a simplicidade do real. Eu espero que as culpas não atrapalhem a quem fizer isso.
Decido sair novamente do assunto dos paradigmas. Tanta filosofia e tantas ideias podem estragar a calma e tranquilidade. Paremos um bocado a queixa social, a atividade panfletária, mas só faltou um assunto recente, diz assim:
Se eu fosse mulher, não deixava mais de sorrir, porque, com certeza, o meu sorriso é capaz de dar força e alegria a alguém, mesmo que eu não soubesse. Não deixava de sorrir, nem sequer na porta dum clube qualquer com nome de café ou de petisco e naquele momento em que o guarda não me deixasse passar por causa da pigmentação da minha pele, eu não chorava, eu acho que até ria, porque esse é uma marca de atraso ainda não ultrapassado de algumas mentes sem se desenvolver. Se eu fosse mulher, não sentia raiva nenhuma, porque, sendo negra, jovem e bonita, sou uma mulher feliz, sem complexos de tipo nenhum e com um olhar límpido e alegre. Não é por falar de superioridade espiritual, mas não poderia deixar de sentir isso quando lembrasse aquele acontecimento. Se não me deixassem passar num clube, café, restaurante, salão, prédio qualquer, devido a minha cor de pele, ria tanto que até urinava... Pá, não seria eu que devia sentir rejeitada e fora do espaço, são eles que vão perder a graça de contar comigo no local. Que se lixem!
Agora que reflito, se eu fosse mulher não fazia implantes mamários, nem de bundas, nem de nada! Eu fosse uma mulher cuja filosofia seria que aquele que realmente tivesse vontade de me querer, devia me aceitar e gostar de mim magra ou gorda, feia ou bonita. O amor não é uma parte do corpo, portanto não deve ser a aparência que determine o tamanho do amor.
Agora, e de novo fora dos paradigmas “terminatorianos”, reparo no interessante de assumir a posição do outro/ outra para percebermos melhor. Gostava de saber tantas coisas sobre o pensamento das mulheres, mas olha, parece que nem elas parecem compreender completamente todo o sistema complexo que elas próprias reservam.
Chega outro paradigma: Se eu fosse mulher, expressava mais esse mundo interior de analise e observação das pedras que, coitadas, formam parte de uma parede qualquer.
A: “Olá, tudo bem?”.
B: “Ei, tudo, só dou uma olhada a estas pedras”.
A: “Pedras?... Agora pedras? Mas, porquê?”.
B: ”Pedras, sim, pedras. Elas me fazem lembrar de Alberto Caeiro”
A: “E como?”.
B: “Eu gostava de ser uma pedra... Uma simples pedra... Gostava de fazer mais pelo mundo, meu caro... Era mais fácil ser pedra e dessa forma, não me preocupava tanto pelos outros”.
A: “Ufa, não devias falar assim. Tu és uma boa pessoa, querida”.
B:”Sei, mas ainda não consegui mudar o mundo. Ainda não fiz mudança nenhuma”
Se eu fosse mulher, mostrava maior confiança no futuro, maior optimismo, porque se vermos bem, nem tudo é mau... Nem tudo é mau, queridíssima... O teu sorriso é um convite ao optimismo...
Começo ficar atraído com este sistema de escolha de perfis e de papeis entro nos paradigmas como se fosse um simulador, um simulador que me deixe assumir, embora na imaginação, situações e visões que, na verdade, não são minhas.
Se eu fosse mulher, não desaparecia 3 ou 4 anos nem prometia amores quando o medo percorria as veias... Se eu fosse mulher, não negava aqueles beijos, nem deixava frases inconclusas por não mexer mais no problema, se eu fosse mulher, não voltava repentinamente a falar de amores àquele que só sente a dor da solidão, a morte a percorrer a alma, a frieza da melancolia... Se eu fosse mulher, não prometia jamais nunca abandonar quando já tinha o molho de chaves nas mãos e planejava o meu escape.



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